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Conquista do nome

O nome próprio

A utilização do nome próprio como instrumento de alfabetização tem se consolidado como uma prática significativa e eficaz no processo de aprendizagem da escrita. Embora pareça uma proposta recente, seu uso pedagógico remonta a décadas passadas, sendo documentado em diferentes contextos educacionais ao longo do tempo.

Referências Históricas e Pesquisas Iniciais

Em 1936, Hildreth, em seu artigo Sequências de desenvolvimento na escrita de nomes, já observava a relevância do nome próprio no desenvolvimento da escrita espontânea. Ao analisar produções de crianças entre três e seis anos, o autor identificou que muitas delas demonstravam interesse em escrever seus nomes nos desenhos. A partir dessas observações, Hildreth concluiu que a escrita do nome próprio poderia ser considerada um indicativo importante do desenvolvimento infantil, mesmo sem instrução formal.

Hildreth

Quando descobrimos, ao fazer exames mentais abrangentes de crianças entre três e seis anos de idade, que muitas das crianças pareciam ansiosas para escrever seus nomes em seus desenhos, tornamos o exercício de escrita de nomes uma parte rotineira de todos os exames dessas crianças. Este experimento preliminar, mas informal, deu evidências convincentes de que a habilidade da criança de escrever seu nome melhorou constantemente dos três aos seis anos de idade, sem qualquer instrução direta na escrita, e que maturidade excepcional ou imaturidade na escrita de nomes, além da instrução direta, foi um fator significativo sinal de desenvolvimento. A fim de verificar esta hipótese provisória, dados sobre a escrita de nomes foram coletados de crianças nessas faixas de idade de maneira mais uniforme e sistemática.

Décadas depois, em 1975, Marie Clay, com sua obra O que eu escrevi?, reforçou a ideia de que as crianças pequenas escrevem com intenção e propósito, mesmo quando ainda não dominam o sistema alfabético. Ela observou que, para muitas crianças, o nome próprio é a primeira palavra que conseguem identificar e tentar reproduzir, servindo como âncora no processo de apropriação da linguagem escrita.

capa do livro O que eu escrevi

Clay

O nome próprio tem sido visto como um passo inicial para o desenvolvimento das habilidades de escrita.

A Contribuição de Emília Ferreiro

A partir da década de 1980, com a publicação em português da obra Psicogênese da Língua Escrita, de Emília Ferreiro e Ana Teberoski, iniciou-se no Brasil a discussão de uma nova perspectiva sobre o processo de alfabetização. Essa abordagem rompeu com a concepção tradicional de ensino mecânico e passou a enfatizar a ideia de que a criança constrói ativamente hipóteses sobre o funcionamento do sistema de escrita, com base em suas experiências e interações com o mundo letrado.

No texto Os processos construtivos de apropriação da escrita (1982), Ferreiro discute como a escrita do nome próprio ocupa um lugar especial nesse processo. Para ela, o nome próprio é simultaneamente uma fonte de informação e de conflito cognitivo: ao tentar compreender por que determinadas letras aparecem sempre em seu nome ou por que a grafia pessoal pode coincidir com outras palavras escritas, a criança entra em contato com a lógica do sistema alfabético.

Ainda que os mecanismos de construção do nome próprio sejam semelhantes aos de outras palavras, seu valor simbólico e afetivo o torna único: trata-se de uma palavra com forte vínculo identitário. Segundo Ferreiro, é justamente essa característica que permite ao nome próprio funcionar como uma "peça-chave" na transição entre a escrita pré-silábica e formas mais avançadas de representação escrita.

Ferreiro

Insistimos: o nome próprio é fonte de informação e fonte de conflito. A criança não entende por que o número de letras não está relacionado à idade; ele não entende por que sua caligrafia - que é sua - pode aparecer em outros escritos; será capaz de dar uma interpretação estável a essa totalidade sem compreender a relação que as partes têm com o todo, etc. Em suma, os processos de construção do nome próprio são em todos os sentidos semelhantes aos processos de construção de outros nomes, exceto - e nisso reside toda a diferença - que as letras não são de qualquer tipo.

Nesse sentido, a escrita do nome próprio nos parece constituir uma peça-chave para compreender a passagem da correspondência de um tipo lógico (uma letra, mas qualquer, para cada sílaba) à correspondência estabilizada própria da escrita.

Emilia Ferreiro, Margarita Gómez Palacio. Nuevas perspectivas sobre los procesos de lectura y escritura. p. 152.

Políticas Públicas e Formação Docente

Influenciado pelos estudos de Ferreiro e Teberoski, o Ministério da Educação (MEC) lançou, em 2000, o Programa de Formação de Professores Alfabetizadores (Profa). Com o objetivo de qualificar a prática docente e promover uma alfabetização significativa, o Profa propôs uma abordagem baseada na concepção construtivista de aprendizagem, com ênfase no uso do nome próprio como estratégia pedagógica. Um dos módulos do programa — "O próprio nome e os nomes próprios" — abordava diretamente essa proposta, oferecendo recursos e reflexões para a prática docente.

Vídeo - Parte 1

Vídeo - Parte 2

BNCC e o Nome Próprio na Alfabetização

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) também reconhece a importância da valorização da linguagem escrita em contextos significativos desde a Educação Infantil. A BNCC propõe que crianças tenham contato com a escrita em práticas sociais reais e destaca, entre os direitos de aprendizagem, o “direito de expressar-se” e o de “explorar linguagens”. Nesse contexto, o trabalho com o nome próprio se alinha plenamente com os princípios da BNCC, pois permite à criança reconhecer-se como sujeito no processo de aprendizagem e experimentar a escrita de forma concreta, funcional e afetiva.

A Prática Docente e o Reconhecimento de Experiências

A Revista Nova Escola, em 2014, publicou um especial intitulado O nome próprio na alfabetização, reforçando a relevância dessa prática. A publicação trouxe relatos de experiências de professoras, como Alaide, da EMEI Dr. José Augusto (São Paulo), que mostraram como o nome próprio pode ser ponto de partida para múltiplas aprendizagens — reconhecimento do sistema alfabético, noções de espacialidade na escrita, diferenciação de letras, e fortalecimento da identidade.


O especial da Nova Escola foi organizado em três tópicos:

No material, a especialista Diana Grunfeld respondeu, em vídeo, a dúvidas comuns de educadores, como a idade ideal para iniciar esse trabalho, o uso de letras bastão e a viabilidade da prática na Educação de Jovens e Adultos (EJA), reforçando que o nome próprio é uma ferramenta pedagógica potente em diferentes contextos e faixas etárias.

  1. Existe idade ideal para iniciar o trabalho com o nome próprio? 👉vídeo
  2. Letras bastão são as mais adequadas para o início da alfabetização? 👉video
  3. É possível trabalhar com o nome prório na EJA? 👉vídeo

Considerações Finais

O uso do nome próprio na alfabetização é mais do que uma estratégia didática: é uma prática que reconhece o sujeito em sua singularidade e favorece a construção do conhecimento a partir de experiências significativas. Ao permitir que a criança se veja representada na escrita, esse recurso desperta interesse, promove reflexões e contribui para uma aprendizagem mais ativa, crítica e autoral.